domingo, 15 de maio de 2011

MUSEU IMAGINÁRIO

MEU MUSEU IMAGINÁRIO

Interessantíssimo fazer este trabalho. Remexer nas memórias guardadas no fundinho de um baú trouxe melancolia e alegria.
Lembrei de fatos que marcaram incrívelmente minha infância, os quais descrevo agora.
Com 5 anos fomos morar em Belo Horizonte, onde tivemos a oportunidade de conhecer vários lugares. Um deles foi Ouro Preto que ficou guardado na memória pelas belíssimas esculturas de Aleijadinho feitas em pedra-sabão.

Estátua do Profeta Daniel e um leão

Também em Minas Gerais , tive a oportunidade de ver de perto um cavalo-marinho. Imaginava tratar-se de um animal de porte grande e me surpreendi com seu tamanho minúsculo.



Cavalo- Marinho

Aos 9 anos tive a oportunidade de conhecer Caxias do Sul. Lá fomos visitar a Igreja de São Pelegrino e me marcou extremamente a réplica da Pietá, de Miguel Angelo, doada pelo Vaticano para aquela igreja. É uma escultura belíssima que marca qualquer um que a veja.


Pietá - Miguel Angelo

Quando nos mudamos para Sant'Ana do Livramento, morava na rua Daltro Filho e estudava na Escola Professor Chaves. Diáriamente passava em frente ao túmulo da Maruca, que era considerada milagreira. Final de ano o mesmo ficava lotado de flores e velas de estudantes que faziam pedidos para serem aprovados.
Outra figura marcante na cidade era o famoso Pinga que fabricava e vendia as famosas balas de mocotó. Sabíamos que ele estava nas redondezas ao ouvirmos a famosa flauta feita de guampa que ele utilizava para anunciar suas balas.
Quando pequena, comi muito as "balas gasosa". E , até hoje, quando lembro, chego a sentir o gosto delas.
Uma pena que, da Maruca, do Pinga e das balas gasosa não tenho imagens. Mas na minha memória elas estão bem nítidas.
Esta poesia de Castro Alves faz parte da minha vida. Ganhei uma coleção de bolso só de poesias dele, e esta me marcou demais.
A órfã na sepultura

Minha mãe, a noite é fria,
Desce a neblina sombria,
Geme o riacho no val
E a bananeira farfalha,
Como o som de uma mortalha
Que rasga o gênio do mal.


Não vês que noite cerrada?
Ouviste essa gargalhada
Na mata escura? ai de mim!
Mãe, ó mãe, tremo de medo.
Oh! quando enfim teu segredo,
Teu segredo terá fim?


Foi ontem que í Ave-Maria
O sino da freguesia,
Me fez tanto soluçar.
Foi ontem que te calaste...
Dormiste . . os olhos fechaste...
Nem me fizeste rezar! ...


Sentei-me junto ao teu leito,
'Stava tão frio o teu peito,
Que eu fui o fogo atiçar.
Parece que então me viste
Porque dormindo sorriste
Como uma santa no altar.


Depois o fogo apagou-se,
Tudo no quarto calou-se,
E eu também calei-me então.
Somente acesa uma vela
Triste, de cera amarela,
Tremia na escuridão.


Apenas nascera o dia,
í€ voz do maridedia
Saltei contente de pé.
Cantavam os passarinhos
Que fabricavam seus ninhos
No telhado de sapé.


Porém tu, por que dormias,
Por que já não me dizias
"Filha do meu coração?"
'Stavas aflita comigo?
Mãe, abracei-me contigo,
Pedi-te embalde perdão...


Chorei muito! ai triste vida!
Chorei muito, arrependida
Do que talvez fiz a ti.
Depois rezei ajoelhada
A reza da madrugada
Que tantas vezes te ouvi:


"Senhor Deus, que após a noite
"Mandas a luz do arrebol,
"Que vestes a esfarrapada
"Com o manto rico do sol,


"Tu que dás í flor o orvalho,
"í€s aves o céu e o ar,
"Que dás as frutas ao galho,
"Ao desgraçado o chorar;


"Que desfias diamantes
"Em cada raio de luz,
"Que espalhas flores de estrelas
"Do céu nos campos azuis;


"Senhor Deus, tu que perdoas
"A toda alma que chorou,
"Como a clí¬cia das lagoas,
"Que a água da chuva lavou;


"Faze da alma da inocente
"O ninho do teu amor,
"Verte o orvalho da virtude
"Na minha pequena flor.


"Que minha filha algum dia
"Eu veja livre e feliz! ...
"í“ Santa Virgem Maria,
"Sê mãe da pobre infeliz."


Inda lembras-te! dizias,
Sempre que a reza me ouvias
Em prantos de a sufocar:
"Ai! têm orvalhos as flores,
"Tu, filha dos meus amores,
"Tens o orvalho do chorar".


Mas hoje sempre sisuda
Me ouviste... ficaste muda,
Sorrindo não sei pra quem.
Quase então que eu tive medo...
Parecia que um segredo
Dizias baixinho a alguém.


Depois... depois... me arrastaram...
Depois... sim... te carregaram
P'ra vir te esconder aqui.
Eu sozinha lá na sala...
'Stava tão triste a senzala...
Mãe, para ver-te eu fugi...


E agora, ó Deus!... se te chamo
Não me respondes!... se clamo,
Respondem-me os ventos suis...
No leito onde a rosa medra
Tu tens por lençol a pedra,
Por travesseiro uma cruz.


í‰ muito estreito esse leito?
Que importa? abre-me teu peito
— Ninho infinito de amor.
— Palmeira — quero-te a sombra.
— Terra — dá-me a tua alfombra.
— Santo fogo — o teu calor.


Mãe, minha voz já me assusta...
Alguém na floresta adusta
Repete os soluços meus.
Sacode a terra... desperta!...
Ou dá-me a mesma coberta'
Minha mãe... meu céu... meu Deus...

Autor: Castro Alves
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